
Há uma coisa que me inquieta cada vez mais no Alentejo Litoral: já não sabemos o que é um “ano normal”. Aliás, começo a desconfiar que essa palavra foi inventada por alguém que nunca viveu perto do Mira, nunca viu um campo rachar em agosto, nem uma enxurrada levar meia encosta em janeiro.
Em três anos passámos de seco a normal e de normal a húmido como quem muda de humor.
2023 foi aquele ano em que a terra parecia pedir desculpa por não ter mais nada para dar. 2024 tentou equilibrar a balança, mas já ninguém acreditava muito. E 2025… 2025 decidiu despejar água como se estivesse a compensar décadas de atraso.
Mas o problema não é chover mais, é chover mal.
A chuva deixou de ser aquela visita educada que entrava devagar, tirava o casaco e ficava uns dias. Agora chega como um parente distante que aparece sem avisar, bate a porta com força e vai-se embora antes de arrumar o estrago.
Os solos não aguentam, os rios sobem depressa demais, e nós ficamos ali, no meio, a tentar fingir que isto é só “mais um inverno”. Não é.
O que está a mudar é o ritmo do território. O Alentejo sempre foi lento, e essa lentidão era a sua força. Agora vive entre extremos: meses de sede absoluta e semanas de dilúvio concentrado. E depois há quem diga que “sempre foi assim”. Não foi.
Quem vive aqui sabe. Quem anda pelas estradas antigas, quem vê o Mira todos os dias, quem sente o cheiro da terra antes da chuva, sabe.
O clima está a mudar e nós estamos a tentar acompanhar, mas a verdade é que o território está a ser puxado para um compasso que não é o dele. E quando o ritmo muda, tudo muda: a agricultura, as casas, as margens dos rios, as conversas no café, até a maneira como olhamos para o céu.
Não escrevo isto para dramatizar. Escrevo porque gosto deste lugar e porque me custa vê-lo a tentar sobreviver a um clima que já não o reconhece. Se isto é o futuro, então temos de aprender a dançar ao ritmo novo, mas sem esquecer a música antiga.
